06/06/2009

Medidas de vigilância e controle não enfrentam causas da depredação na escola

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A partir de agosto, mais de 2 mil escolas da rede pública do estado de São Paulo receberão 11 mil câmeras de vigilância. A medida faz parte do Sistema de Proteção Escolar da secretaria de Educação. Lançado na semana passada, o projeto reúne diversas ações para combater a violência no ambiente escolar.
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Uma pesquisa, realizada com 683 escolas estaduais de São Paulo pelo Udemo (sindicado dos diretores e supervisores de ensino do Estado) sobre violência nas escolas, aponta que 65% das instituições de ensino tiveram casos de depredação (prédio, mobiliários, ambiente etc.). Metade das escolas também enfrentou episódios de pichação, dano a veículos e arrombamentos. Explosão de bombas e furtos (TV, vídeo etc.) aconteceram em mais de 30% das escolas.
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A professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (FE-Unicamp) e coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Violência, Imaginário e Formação de Educadores (Violar), Áurea M. Guimarães, problematiza a proposta de instalação das câmeras na escola. "Não adianta colocar todo esse aparato. Os sistemas de controle não diminuem os roubos e as depredações. Há formas de driblá-los. É mais fácil colocar as câmeras ou criminalizar a pichação, fugindo assim das discussões do problema".
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O professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP), Vitor Henrique Paro, defende soluções sistêmicas e mais amplas. "Por que nos preocupamos com as depredações e com as câmeras? Por que não pensamos em um projeto de escola?", pergunta.
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De acordo com a professora da Faculdade de Educação da Unicamp, Ana Maria Aragão Sadalla, a secretaria trabalha com as consequências, não com as causas. "Perde a oportunidade de pensar novas estratégias para educação".
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Para o presidente da Udemo, Luiz Gonzaga de Oliveira Pinto, a instalação das câmeras pode ajudar no combate à violência contra bens materiais e contra as pessoas dentro do espaço escolar. "É evidente que precisa de câmeras na escola. Se você tem depredação e invasão, é um problema extremamente sério. Com essa tecnologia, as pessoas serão identificadas e punidas. Hoje ninguém vê os problemas".
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Além do ato de depredar
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Para Áurea Guimarães, a depredação, uma das muitas formas da violência na escola, é um sinal de que algo não vai bem no espaço pedagógico. A coordenadora do Violar desenvolveu duas pesquisas em torno do tema, realizando entrevistas em escolas de Campinas (SP).
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No início, a pesquisadora buscava verificar a hipótese de que havia uma relação direta entre o rigor nos sistemas de vigilância-punição e a depredação. O resultado do trabalho foi em outra direção, apontado para a complexidade do problema.
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"Encontrei escolas com um rígido sistema na disciplina e que não eram danificadas; em outras, a disciplina quase inexistia, mas o prédio era depredado; enquanto que também apareciam estabelecimentos onde a rigidez disciplinadora parecia ocasionar a depredação feita por alunos", lembra Áurea.
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O estudante do 1°ano do Ensino Médio da Escola Estadual Prof. Wilfredo Pinheiro, localizada na zona leste de São Paulo, Alef Lima da Paz, acredita que os adolescentes, muitas vezes, depredam a escola ou fazem pichações para demarcarem o território. "É um modo de dizer: esse é o meu espaço. Há uma confusão dos espaços. A escola também não incentiva a arte de rua", comenta em relação à pichação.
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Áurea Guimarães lembra que há múltiplos fatores que levam à depredação e à pichação: "há grupos que fazem por fazer, outros para contestar". A professora reforça a necessidade de refletir sobre o que está acontecendo no ambiente escolar. "É preciso compreender por que essa rede se apropria do espaço escolar, não para compactuar com a violência, mas para criarmos vias de passagem para a violência".
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As vias de passagem são aberturas de um espaço comum a alunos e professores, onde cada um tenha o direito de dizer a sua palavra. "A palavra, a conversa, a arte, a literatura são vias de passagens", explica Áurea.
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Por meio dos estudos, a pesquisadora percebeu a importância do relacionamento entre alunos-professores. "Alguns professores possibilitavam o interesse dos alunos pela escola, como também o surgimento de críticas feitas à instituição, não através do quebra-quebra, mas pelo uso da palavra".
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A coordenadora do Violar também discute a questão da punição. "Tem de ter punição, mas por que nunca é educativa? Em alguns casos, é preciso chamar a polícia. No entanto, a escola é um espaço educativo. É preciso discutir o problema na escola. Perguntar à comunidade: como podemos resolver isso juntos? Uma vez que é algo que acontece no coletivo e é de responsabilidade de todos".
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Criação e valorização dos espaços
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Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Padre Francisco Silva, em Campinas (SP), a direção enfrenta os problemas por meio do diálogo. "Temos poucos casos, mas quando temos chamamos o aluno para conversar e ele se responsabiliza pelos seus atos. Por exemplo, se quebra a lâmpada, coloca outra no lugar. Arrombou o cadeado, precisa trazer outro", comenta a vice-diretora, Clarice Jaeger Área.
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A escola também investe no estreitamento da relação com os pais. Uma vez por mês o núcleo de pais, coordenado por duas professoras e a inspetora de alunos, chama os pais e a comunidade para participarem de palestras e grupos de discussão.
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"É uma grande dificuldade atrair os pais para a escola. Primeiro, porque eles só são chamados para ouvir que o filho é bagunceiro. É preciso que os pais sejam chamados para atividades prazerosas e comecem se sentir parte da escola", comenta o professor da USP, Vitor Paro.
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A criação de espaços para discussão com os alunos, canais de comunicação com os pais e a escola aberta à comunidade podem ajudar na valorização do espaço e na diminuição da violência.
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Há quatro anos a Escola Estadual Francisco Brasiliense Fusco, localizada no bairro do Campo Limpo na capital paulista, estava praticamente abandonada, enfrentava depredações, pichações e corria o risco de fechamento. Na metade de 2005, Rosângela Moura Macedo assumiu a direção da instituição.
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Após reforma do prédio, patrocinada por uma empresa privada, e o trabalho com a comunidade escolar e do entorno, os problemas diminuíram. "Hoje a comunidade toma conta da escola. Não acontece roubo, nem furto. No ano passado, só tivemos de fazer dois registros na polícia relacionados a casos de agressão de rua. Quando assumi, eram cerca de 50 registros na polícia por ano", lembra a diretora da escola, Rosângela Macedo Moura

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