28/06/2009

Kassab põe 48 mil crianças de creche em escola

28/06/2009 - 10h34
ADRIANA FERRAZ
do Agora
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A gestão Gilberto Kassab (DEM) adota uma nova política para reduzir a demanda por vagas em educação infantil: transferir crianças de creches para pré-escolas aos três anos de idade. São 48 mil alunos nessa faixa etária ocupando lugar nas Emeis (Escolas Municipais de Educação Infantil). O déficit de vagas em creche hoje está em 67 mil.
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A troca é considerada, por especialistas, inadequada porque permite a formação de salas com até 35 alunos. Eles não se misturam a crianças de outras idades, mas, se estivessem em CEIs (Centros de Educação Infantil), as turmas teriam, no máximo, 18 crianças. Além disso, o período atendido cai de até dez para quatro horas, em média.
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A estratégia é questionada pelo Ministério Público, que instaurou inquérito civil, em abril, para apurar qual equipamento educacional é indicado a crianças de três anos. A Promotoria quer saber do secretário municipal da Educação, Alexandre Schneider, se a troca prejudica a evolução do ensino por conta da superlotação das salas e o acúmulo de responsabilidades dos professores, que precisam cuidar do dobro de alunos.
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A medida passou a ser válida após a prefeitura mudar as portarias de matrícula. Em 2007, a gestão Kassab especificava que creches deveriam atender crianças de até três anos --com quatro, a vaga teria de ser preenchida na pré-escola. Em 2008, as creches passam a atender crianças de até dois anos; a partir de três anos, elas são incluídas nas Emeis. A mudança vai contra resolução do Conselho Nacional de Educação Básica.
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Para diminuir a fila
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A discussão chegou ao Fórum Paulista de Educação Infantil e conta com parecer feito pela Faculdade de Educação da USP. Em documento enviado à Promotoria de Defesa dos Interesses da Infância e Juventude da Capital, em maio, os educadores ressaltam os prejuízos da ação.
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"A Emei não dispõe de estrutura e funcionamento para a educação e o cuidado da criança pequena. Não há espaço para o descanso e a tranquilidade que a educação dessas crianças requer: agrupamentos menores, mediações do adulto, atendimento individualizado, ambiente adequado para a educação e o cuidado", diz o documento.
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Para a professora Maria Letícia Nascimento, da USP, a regra é absurda. "Qualquer leigo compreende que uma sala de 35 crianças é uma carga enorme para a professora. Só serve para diminuir a fila. Sem falar nas condições. A sala de uma creche tem mais espaço, até para dormir. Na Emei, elas ficam sentadas em cadeiras, com mesas na frente. Não dá nem para brincar."
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O Movimento Creche para Todos acusa a prefeitura de desrespeitar a lei. "É uma manobra ilegal. Está na Constituição, creche é para crianças de 0 a 3 anos. É um direito inclusive dos pais, do ponto de vista financeiro. A alteração causa retrocesso até na sobrevivência das famílias. Os pais precisam trabalhar", diz o advogado Salomão Ximenes. A entidade pediu mudanças. "Esperamos que o secretário reveja as normas. O número [48 mil] é muito alto. A prefeitura reduz a fila e não aumenta a rede."
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Outro lado
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A Secretaria Municipal da Educação se recusou a responder os questionamentos levantados pela reportagem. O Agora entrou em contato com a assessoria de imprensa do secretário Alexandre Schneider na última quinta-feira, mas não obteve retorno.
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Para responder, a pasta exigiu que as informações contidas no parecer feito pela USP (Universidade de São Paulo) fossem enviadas por e-mail. A reportagem se recusou, já que o documento faz parte de um processo de investigação do Ministério Público.
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A prefeitura pode solicitar os dados à Promotoria. Na sexta-feira, Schneider poderia ter feito isso pessoalmente. Ele escreveu no Twitter - espécie de miniblog na internet - que participaria de uma audiência no Ministério Público.
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A posição dos educadores, porém, não é o principal argumento da reportagem, apenas reforça o problema. Outros pontos questionados, como o total de alunos matriculados em Emeis, por exemplo, também não foram comentados.
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Essa não é a primeira vez que o secretário não quis falar com o Agora. Na semana passada, o jornal também não foi atendido ao pedir entrevista sobre a licitação da merenda escolar.